domingo, 16 de março de 2014

Da Teologia Pastoral à Teologia Prática Fundamental 
Breve resenha histórica - Parte II


Pastoral é ouvir a realidade, a vida, é levar a sério a encarnação de Cristo. É a continuação da ação de Cristo como pastor, a ação da Igreja. É toda a vida da Igreja, hoje e aqui, onde acontece a vida humana. O seu objeto de estudo é a fé como conteúdo e a fé como adesão/ ato. O método que utiliza é o que foi expresso no Concílio Ecuménico Vaticano II: ver/julgar/agir, para o qual é fundamental o uso do discernimento, estando atento à leitura dos sinais dos tempos. As ideias comandam a realidade.

Embora, nos Atos dos Apóstolos já se reconheça a Pastoral ela apenas entrou como disciplina nas escolas em finais do século XVIII, na Alemanha. Na parte I desta publicação abordamos os três primeiros momentos da evolução do conceito de teologia pastoral (aplicativa – bons conselhos pastorais; eclesiologia – conceito de Igreja ligado ao conceito de teologia e o  O Vaticano II – Gaudium et Spes que integra a doutrina cristã a caminho da teologia prática). O quarto e último momento da teologia pastoral inicia-se após Vaticano II com o contributo da Cristologia (mistério da trindade, pessoa humana e divina); com a aceitação da categoria de povo (Igreja dos pobres); a conceção de Koinonia; a tarefa evangelizadora (a nova evangelização da qual falava JP II); a relação entre fé e política; a remodelação dos mistérios e o serviço eclesial à comunidade.
Concluindo, é importante referir que se deu uma evolução do conceito de teologia pastoral (desde a disciplina que incluía todas as matérias da teologia ao “manual do pastor”) ao conceito de teologia prática, a ciência que assenta no binómio teoria-prática (a teoria cristã da Igreja e uma prática da teologia).
Boa semana para todos!

quarta-feira, 5 de março de 2014


Da Teologia Pastoral à Teologia Prática Fundamental 
Breve resenha histórica - Parte I

O termo teologia pastoral foi utilizado pela primeira vez no séc. XVI, pelo Bispo Binsfeld, na publicação Enchiridion Theologias Pastoralis, uma obra que aborda a doutrina necessária aos padres encarregados da cura animarum.

Em 1774 a Imperatriz M. Teresa de Áustria confia ao beneditino F. S. Rantenstrauch a reforma dos estudos teológicos. Aparece então a teologia pastoral como disciplina académica. Nesta primeira etapa, a teologia pastoral é mais uma arte e técnica do que ciência ou teologia. Consiste num receituário eclesiástico de conselhos práticos, sem base teológica a que Ramiro Pellitero chama de teologia aplicativa. No fundo a teologia pastoral é entendida como a doutrina do ofício clerical do pastor.

Num segundo momento a teologia pastoral identifica-se com uma teologia da Igreja em ação – o marco eclesiológico. Em 1841, o alemão A. Graf, por influência protestante, propôs que se denominasse teologia prática, como forma de lhe retirar o aspeto clerical do termo pastor. A ideia da pastoral eclesiologicamente entendida é a edificação ou realização total da Igreja. A teologia é entendida como ciência prática ou ciência de ação. F. X. Arnold, discípulo de Graf, define a teologia pastoral, depois da segunda guerra mundial, como uma visão teológica da essência da Igreja enquanto agente da pastoral das suas ações eclesiais.

Com o Concílio Ecuménico Vaticano II abre-se um terceiro período na história da teologia pastoral. Depois deste acontecimento mundial ganham relevo aspetos pastorais novos ou renovados: a teologia da palavra a partir da revelação e da Bíblia; a celebração da liturgia como ação da assembleia; a conceção da Igreja como sacramento, o povo de Deus e comunidade de crentes; as relações Igreja-reino-mundo; a importância do diálogo com todos os mundos alheios à Igreja; e a natureza mediadora da ação pastoral.
(continua)

domingo, 2 de março de 2014

Lumen Gentium
Constituição Dogmática sobre a Igreja – Lumen Gentium / Vaticano II

            O Concílio Ecuménico Vaticano II, decorreu entre 11 de Outubro de 1962 (abertura solene) e 8 de Dezembro de 1965 (clausura), orientou-se segundo quatro grandes princípios: «fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhora às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja.» (Sacrossanctum Concilium, n.º 1).
            O texto da Constituição Lumen Gentium foi promulgado, solenemente pelo Pontífice Paulo VI, em 21 de Novembro de 1964. Está organizado em oito capítulos: O Mistério da Igreja; O Povo de Deus; A Constituição Hierárquica da Igreja e em especial o Episcopado; Os Leigos; A vocação de todos à Santidade na Igreja; Os Religiosos; A índole escatológica da Igreja Peregrina e a sua união com a Igreja Celeste; e A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Ministério de Cristo e da Igreja.
            Após uma leitura atenta da Constituição Dogmática sobre a Igreja faço apontamento das directrizes que dela derivaram:
            «A luz dos povos é Cristo», inicia Constituição, e continua afirmando que o objectivo deste Concílio é «iluminar com a Sua Luz, que resplandece o rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura». Alertando para as condições do tempo em que vivemos, onde os homens estão mais ligados uns aos outros de várias formas: sociais; técnicas e culturais. O objectivo, neste mundo em mudança, é que todos alcancem a plena unidade em Cristo.
            Jesus Cristo, pastor eterno, edificou a Igreja, ao enviar os seus Apóstolos, como Ele fora enviado por Seu Pai, e quis que os seus sucessores, os Bispos, fossem pastores da sua Igreja até ao fim dos tempos. Escolheu Pedro, para ficar à frente dos Apóstolos para que o episcopado fosse uno e indiviso e nele instituiu o princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade de fé e comunhão. Este Concílio renova esta doutrina e «pretende declarar e manifestar a todos a doutrina sobre os Bispos, sucessores dos Apóstolos, que com o sucessor de Pedro, vigário de Cristo e cabeça visível de toda a Igreja, governam a casa de Deus vivo».
            Os Bispos devem promover e defender a unidade da fé e disciplina comum a toda a Igreja, formar os fiéis no amor pelo Corpo místico de Cristo e promover todas as actividades comuns a toda a igreja, para que a fé se difunda e a luz da verdade total nasça para todos os homens. Deve, ainda, como Apóstolo dar-se a todos, estar sempre pronto para evangelizar e para exortar os próprios fiéis ao trabalho apostólico e missionário. Também «os fiéis devem aderir ao Bispo, como a Igreja adere a Jesus Cristo, e Jesus Cristo ao Pai, a fim de que todas as coisas conspirem para a unidade e se multipliquem para a glória de Deus».
 
            Os Presbíteros, em virtude do Sacramento da Ordem vivam entre si em íntima fraternidade, auxílio mútuo, tanto espiritual como material, pastoral ou pessoal. Devem velar pelos fiéis que espiritualmente geraram pelo Baptismo e pela doutrinação. Devem apresentar aos fiéis e infiéis, aos católicos e não-católicos, a imagem do autêntico ministério sacerdotal e pastoral, dar a todos testemunho de verdade e de vida e procurar todos aquele que embora Baptizados abandonaram os sacramentos e a fé.
            Os Diáconos «…lembrem-se todos da recomendação de S. Policarpo: “misericordiosos, diligentes, caminhando na verdade do Senhor, que se fez servo de todos”.»
            Os Leigos, devem ser testemunhas da ressurreição e da vida de Jesus Cristo e um sinal do Deus vivo. Devem alimentar o mundo com frutos espirituais e difundir o espírito que anima os pobres, mansos e pacíficos. «Numa palavra: sejam os cristãos no mundo aquilo que a alma é no corpo”.»
            Todos os cristãos são chamados e obrigados à santidade e perfeição do próprio estado. Devem procurar controlar os seus afectos, para que não se impeça de avançar na perfeição da caridade, pelo uso de coisas terrenas, apego a riquezas, em oposição ao espírito de pobreza evangélica.
            Os Religiosos procurem, com empenho, que a Igreja revele cada mais Cristo aos fiéis e infiéis. Os que foram chamados à profissão dos conselhos, devem cuidar com empenho de perseverar na vocação a que o Senhor os chamou, e de nela se aperfeiçoarem para maior santidade da Igreja e maior glória da una e indivisa Trindade.
 
            Este Concílio, «com solicitude pastoral, exorta todos aqueles a quem isto diz respeito a esforçarem-se por desterrar ou corrigir os abusos, excessos ou defeitos que porventura tenham surgido aqui ou além, e tudo restaurem para maior glória de Cristo e de Deus. Ensinem, portanto, aos fiéis que o verdadeiro culto dos santos não consiste tanto na multiplicação de actos externos quanto na intensidade do nosso amor efectivo (…).Por outro lado mostrem aos fiéis que as nossas relações com os bem-aventurados, quando concebidas à luz da fé, de modo algum diminuem o culto de adoração prestada Deus Pai por Cristo, no Espírito, mas pelo contrário o enriquecem ainda mais.»
           
             O capítulo VIII adverte, no proémio, que os fiéis, aderindo à cabeça que é Cristo, devem, em comunhão com todos os santos, venerar a memória de Maria, a Virgem Mãe de Deus e Senhor Jesus Cristo. Recomenda, no ponto 67.º, a todos os filhos da Igreja que fomentem o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela. Aos teólogos e pregadores da palavra de Deus, exorta-os a evitarem o falso exagero e a demasiada estreiteza na consideração da dignidade singular da Mãe de Deus. «Os fiéis lembrem-se de que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes.» (ponto 67.º)
 
Espero que gostem! Boa semana para todos.
Ivone