Reflexão final
«As ciências progridem na medida em
que adquirem novas verdades, como fruto da criatividade reflexiva de
fundamentação ou investigação de causas. Não basta pois 'vulgarizar' o que
outros encontraram; exige-se uma contribuição pessoal que traga qualquer coisa
de 'novo': factos, ideias, hipóteses, argumentos, conclusões» (P.e Júlio
Fragata SJ).
Retirado de luismiguel-digital.blogspot.pt (3/07/2014)
A organização de um seminário sobre
métodos em teologia prática para alunos da licenciatura em ciências religiosas
remete-nos para objetivos tais como: o desenvolvimento de capacidades de
investigação pessoal, de auscultação da realidade, a leitura dos «sinais dos tempos»,
incremento da capacidade de discernimento com qualidade e ponderação e para a
elaboração de um discurso próprio temático. Parece-me que estes foram alguns
dos objetivos alcançados para além de uma “desmistificação” da palavra “blog”,
que à partida parecia assustadora.
Inicia-mos o percurso definindo
teologia prática, compreendendo o conceito (como nasceu e evoluiu), procurando
o seu estatuto epistemológico e conhecendo o seu objeto e estudado e
aprofundado os métodos que utiliza. Para isso fomos convidados a ler vários
autores com obras pertinentes para o nosso estudo.
As publicações, nos blogues criados,
foram muitas e na sua maioria iniciavam dizendo “O conceito de Teologia
Pastoral sofreu uma evolução no século XX, devido às mudanças notáveis na
compreensão dos seus conteúdos e das suas finalidades. Essa evolução e mudança
ocorreram, em simultâneo, com os itinerários da teologia, da vida da igreja, e
a forma de captar a relação entre a igreja e o mundo.” (Sandra – Blog Texto é pretexto”).
O Luís Almeida no seu blog Teologia Prática vai mais atrás e define
teologia (theos = "divindade" + λóγος, logos = "palavra").
Afirmando que o «termo "teologia" teve origem na Antiguidade grega,
vindo a assumir três significados distintos: mitológico, filosófico-cosmológico
e cultural. Podemos, no entanto, na atualidade, considerar a teologia como a
ciência sobre Deus, os seus atributos e as suas relações com o Homem e o
Universo. Assim, numa última instância, é um tratado sobre Deus, na medida em
que reflete sobre o dado revelado por Deus e sobre a fé que interroga e procura
entender até onde lhe é possível. Entende-se por "teólogo" aquele que
se dedica ao estudo da teologia.»
No blog Seminário: Método de Teologia Prática, do Bruno Félix, define-se a
teologia Prática como sendo a atuação da Igreja no Mundo; o discurso crítico e
construtivo sobre a ação cristã no mundo. O seu objetivo é contribuir para o
aperfeiçoamento da ação cristã na realidade do mundo, não se prendendo somente
às atividades pastorais ou às necessidades internas da Igreja. Tendo um objeto
material que é Deus e todas as realidades por Ele criadas e governadas pelo seu
desígnio salvador e um objeto secundário que se traduz em todas as coisas
criadas enquanto ordenadas por ele. O objeto formal, indica o ponto de vista.
Neste caso, a razão iluminada ou guiada pela fé. Enumera também três grupos de
análise metodológica em teologia prática: qualitativos: explicam-nos qual o
sentido das coisas; quantitativos: explicam-nos as coisas por causa - efeito; mistos:
junção dos qualitativos com os quantitativos.
Ao avaliar o estatuto epistemológico
da Teologia Pastoral Lurdes Domingues explica, nas suas Leituras Viagantes, que “segundo o autor José Luís Meza, a Teologia
Pastoral é uma disciplina teológica que reflete sobre a Igreja que se constrói
dia a dia, com a força do Espírito Santo, ao longo da história, e tem o
estatuto epistemológico em três dimensões: científica, eclesial e
significativa. Assim, é científica enquanto tem objeto de estudo, tem um método
e tem sistematizado um conhecimento. Como eclesial porque o seu objeto é o mistério
da Igreja e da sua realidade atual. E significativa porque a Igreja, como
sacramento da salvação, se faz sinal do reino. O estatuto epistemológico da
Teologia Pastoral tem o seu ponto de alcance na dimensão da sacramentalidade da
Igreja.”
Em Moral em Alta – Teologia Pastoral, da Paula Rodrigues afirma-se que
a teologia prática (hoje) refere-se à aplicação prática da teologia à vida
quotidiana, que se desdobram em quatro tarefas: o que está a acontecer? Tarefa
empírico-descritiva; por que está a acontecer?
Tarefa interpretativa; o que deve acontecer? Tarefa normativa e como deve
responder? Tarefa pragmática.
Ficamos a saber que o conhecimento da
realidade é feito através do “…método (da teologia pastoral) … discernir e
refletir sobre o contexto em … missão da Igreja se realiza. Desta forma, a
leitura dos sinais dos tempos pressupõe sempre uma compreensão do mundo e da
história em chave teológica. E este processo, não obstante ser essencialmente
teológico, não se realiza sem a comparticipação das ciências sociais e humanas
que ajudam a teologia a saber decifrar, ou melhor, a discernir com maior
clareza os sinais dos tempos. A teologia pastoral deve analisar a missão da
Igreja de acordo com a época em que se insere, tendo em conta as várias
condicionantes: cultura, economia, tradição, localização…” (Teresa Ferreira - Métodos de Teologia Prática – Reflexões).
Ao abordarmos as funções do sacerdote
identificamo-las com a tripla identidade de Cristo (Sacerdote, Profeta e Rei) explicitando
que são funções ou serviços herdados pela Igreja, comunidade, corpo e presença.
Pelo Batismo e Confirmação todo o cristão participa no sacerdócio comum de
Cristo e é chamado a construir, pelo serviço (neste caso pastor), o Reino de
Deus na terra, um Reino de Perdão e Liberdade (iniciado por Cristo mas não
consumado). Também pela vocação, o pastor é profeta. É um homem escolhido e
enviado por Deus e conduzido pelo Espírito Santo na proclamação da palavra de
Deus. (resposta ao comentário feito pelo docente em Seminário: Método de Teologia Prática)
Em tesresacarvalhoasilva, entre muitas outras coisas, fez-se referência
ao Concílio Vaticano II que “insistiu na formação de “verdadeiros pastores de
almas” e concebeu uma tarefa pastoral onde relaciona a missão das pessoas e o
ecumenismo.” Culminado com esta afirmação da Elvira Carneiro em Ciências Religiosas “A Gaudium et Spes mostra que não há
conhecimento humano que tenha um caráter meramente teórico, visto que um ato de
um homem concreto implica a razão prática.”
A Tânia
Malheiro, em Métodos de teologia Prática, fez uma apresentação do capítulo
terceiro da obra Practical Theology and Qualitative
Research Methods de Swinton,
J. &, Mowatt, H, onde explicou que esta obra deu “… o seu contributo para o
discurso sobre a relação entre a Teologia e a Investigação Qualitativa,
particularmente sobre como os teólogos práticos podem usar de forma “fiel” a
Investigação Qualitativa, afirmando que esta não tem prioridade lógica sobre a
Teologia, devendo "converter-se" para uso na Teologia Prática.”
Depois desta
viagem pela esfera dos blogues, criados, só me resta concluir esta publicação
com um parágrafo em jeito de reflexão pessoal. Portanto aqui vai…
A Teologia
Prática é um dos domínios da teologia (ciência da doutrina cristã) que se ocupa
do papel, das funções e das condições da ação dos pastores da Igreja e como tal
tem um estatuto epistemológico, objeto e métodos próprios. Ao longo das várias
sessões práticas deste seminário tivemos ocasião de contatar de perto com
alguns deles. Assenta no binómio teoria- praxis, ou seja a teoria cristã da
praxis da Igreja e uma praxis da teologia. O termo teologia prática é resultado
de uma evolução dos conceitos: a passagem de uma pastoral do ministério ordenado
à ação da Igreja. Evoluiu de teologia pastoral (século XVIII) para no final do
século XX se denominar teologia prática, termo que hoje conhecemos. A meu ver o
conceito mais importante dentro da teologia pastoral (para além de Cristo) é o
conceito de discernimento, na
maneira em que se está em sintonia com a comunidade eclesial. E como afirma o
Luís Almeida, seguindo S. Paulo, “… ainda que possua a fé em plenitude, a ponto
de transportar montanhas, se não tiver caridade,
nada sou.”
Ivone Brás
Publicação baseada na análise dos blogues (até ao dia 4 de
Julho) dos colegas de seminário e nos apontamentos das sessões práticas.